segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SOLIDÃO E ENVELHECIMENTO COGNITIVO

O nível de funcionamento cognitivo dos idosos não é igual nem semelhante. Longe disso. Varia muito. O que explica essa ampla diferença?

Não é um problema “acadêmico”. Tem profundas implicações para a qualidade de vida dos idosos e, também, para a expectativa dos mais jovens. O que sobrará para eles quando chegarem aos 70 ou 80? Idosos cognitivamente aptos, na minha opinião, podem e devem trabalhar – em interesse próprio.

A solidão é um fato importante na vida de todos, particularmente na vida dos idosos. Indo diretamente ao extremo, a solidão tem uma associação com o suicídio que foi demonstrada em muitos países, classes, regiões, etnias e culturas diferentes. Resolvi brincar de criativo e chamei de solicídio os suicídios intimamente associados com a solidão.

As funções e a capacidade cognitivas estão associadas com muitas coisas, não apenas à capacidade de trabalhar, mas também de cuidar de si e de suas necessidades, de aprender (que é um processo continuo, o que varia é a velocidade), de poder interagir com outros, inclusive familiares, como netinhos e netinhas, ler, estudar, se manter ativo, além do místico conceito de entender o mundo.

Recentemente, Boss, Kang e Branson publicaram uma revisão sistemática das relações entre a solidão e as funções cognitivas. Os resultados que relatam são consistentes.

Primeiro, vamos dar uma ideia de como fizeram a pesquisa. Fizeram uma revisão dos trabalhos disponíveis eletronicamente, fossem quantitativos, qualitativos ou quali-quanti, publicados do início de 2000 a meados de 2013. Se limitaram à população com idade ≥ 60 anos.

O que descobriram?

Descobriram que o efeito da solidão é catastrófico. A mais solidão, pior o funcionamento cognitivo; menos habilidades cognitivas, maior redução do QI, processamento mais lento de ideias e problemas, pior desempenho na memória de curto prazo e na de longo prazo também.

Arghh! É um massacre da inteligência!

Metodólogos, tranquilos! Não é uma associação derivada da associação comum com terceiros fatores de tipo demográfico ou psicossociais. Depois de controlar esses fatores, a solidão continua afetando negativamente nossas capacidades intelectuais.

“Enter” Lênin: o que fazer?

O que podemos fazer para combater nossa própria solidão? E a dos outros, particularmente daqueles que podemos influenciar e ajudar?

E o Estado, o município, o....?

Podemos, claro, pensar em vários tipos de atividades e iniciativas a partir do poder público que reduziriam a solidão de muitos idosos. Políticas públicas inteligentes fazem exatamente isso. Em tempos de crise, com um estamento político que só olha para o seu próprio umbigo e o seu próprio bolso (ou melhor, contas bancárias porque tanto dinheiro não cabe nem no bolso de Gulliver), não acontecerá nada. Morreremos esperando.

A iniciativa tem que ser nossa.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

 

Saiba mais:

Loneliness and cognitive function in the older adult: a systematic review, em Int Psychogeriatr. 2015 Apr;27(4):541-53. doi: 10.1017/S1041610214002749. Epub 2015 Jan 2.

 

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sábado, 10 de dezembro de 2016

Condenando inocentes

O “ouvi dizer”...

Há um elemento importante nos julgamentos em quase todos os estados americanos que é a inadmissibilidade do “hearsay”. “Ouvir diretamente” pode ser usado num julgamento; “alguém disse que ouviu de mais alguém” não pode. Há razões para isso. Há ampla evidencia demonstrando que a prova testemunhal é falha, sendo a origem de muitos erros judiciais. Falha não quer dizer inútil, mas é preciso reduzir a margem de erro.

O Innocence Project usou o DNA em vários casos em que prova(s) testemunha(is) foram usadas para condenar o acusado. Cada passo que nos distancia da prova material aumenta a probabilidade de erro. Por isso, “fulano disse que ciclano disse” não é admissível.

É preciso muito cuidado para não condenar inocentes. Este ano, o Innocence Project conseguiu a absolvição de sete inocentes nos Estados Unidos. Esses homens já haviam sido condenados.

Veja alguns desses casos e o estrago que uma condenação errada pode causar: Darryl Howard passou 24 anos numa prisão na North Carolina. O uso de DNA retirado da cena do crime e outras provas ajudaram a inocentá-lo.

Há outras provas periciais com margem de erro maior: Keith Harward passou 33 anos na prisão. Sua condenação foi baseada no relatório de dentistas “peritos forenses”. O DNA, que não era usado na época (1982), foi preservado e não era dele. Foi inocentado depois de um erro que lhe custou 33 anos de prisão. A margem de erro das conclusões periciais das marcas deixadas pelas dentadas é tão grande que, em vários estados, não é uma prova aceita.

Adicionalmente, não podemos esquecer que condenar um inocente quase sempre deixa um ou mais culpados livres.

 

Gláucio Soares IESP/UERJ

 

Se quiserem saber mais sobre o Innocence Project, consultem (em Inglês):

info@innocenceproject.org

 

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O fim da bolsa-cemitério

O Estado do Rio de Janeiro teve uma iniciativa de inegável inteligência acadêmica e orçamentária. Isso foi há anos, quando a SBI descontinuou seu auxilio ao então IUPERJ e professores, alunos e staff permaneceram fieis à instituição, dispostos a enfrentar dificuldades e sofrer provações por um ideal institucional.

Embora parte considerável do orçamento da instituição fosse composta por dotações obtidas pelo Corpo Docente para suas pesquisas, faltava a garantia mínima de continuidade para que a instituição sobrevivesse.

“Enter” a ideia genial, a bolsa-cemitério! O então Diretor do IUPERJ, o então Reitor da UERJ e o então governador do Estado do Rio de Janeiro planejaram a sobrevivência do IUPERJ, agora com outro nome, IESP.

Porém, o corpo docente era constituído em parte significativa por professores da terceira idade, que continuavam ativos e muito produtivos, pesquisando, dando aulas, orientando, publicando. Uma geração que manteve a instituição por décadas no topo das avaliações da CAPES nas duas disciplinas, juntamente com a USP.

Como absorve-los? Foi, então, criada uma bolsa, que chamo irreverentemente de bolsa-cemitério, que exigiria três condições aos beneficiados: ter um currículo de peso, ter mais de setenta anos e, como requisito, um compromisso assinado de morrer em poucos anos, a limitante e temida Cláusula Terceira.

Era um grande negócio para o Estado e para a universidade, receber vários professores/pesquisadores de renome sem ter investido um real na sua formação, através de uma bolsa mensal (menos de cinco mil reais cada), que é uma fração de todos os proventos de um professor de qualquer universidade federal. Não causamos nem outros gastos – nós, as velhinhas e os velhinhos produtivos, não temos direito a férias, décimo-terceiro nem aposentadoria. Plano de saúde, só o do SUSto.

Esse programa foi suspenso. Não há previsão de volta. Falta de recursos... E, como tantos outros "desbeneficiados" do nosso estado, me pergunto: onde foram parar esses recursos? Em apartamentos luxuosos? Viagens abominavelmente caras? Hotéis cuja diária pagaria um mês da bolsa-cemitério? Anéis de centenas de milhares de reais? Afinal, um só anel pagaria por dois anos das bolsinhas-cemitério de todos nós, os sete matusalêmicos produtivos somados. Eita anelzinho caro...

Foram os Iates? Ou os jatinhos privados de fazer inveja ao Bispo Macedo? Cada um desses pagaria todos os gastos com todo o pessoal da instituição por muitos anos.

Essas são as mesmas perguntas que os funcionários se fizeram e fazem. Saíram quase todos. Também estavam na instituição há bastante tempo. Por amor e dedicação, aguentaram o máximo que puderam. São tão bons que, em época de recessão, conseguiram emprego rapidamente.

E os cidadãos menos privilegiados do nosso estado? Eles estão num nível de subsistência e, cotidianamente, não conseguem atendimento para satisfazer qualquer uma das suas necessidades básicas. Estão em situação muito pior do que a nossa.

Voltando a pensar na classe Senex, confesso que estou apreensivo. Com poucas exceções, a Terceira Clausula ainda não foi cumprida. Espero que, além de não pagarem a bolsa desde junho, não me venham exigir que bata o pacau...

Abba Methuselah

 

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O amor incondicional e seus efeitos sobre filhos e filhas

Há pais cuja dedicação extrema é exemplar. Augusto Odone e Michaela Murphy Odone, cujo filho, Lorenzo, foi diagnosticado com uma doença rara e cruel, adrenoleucodistrofia (ALDO), cujos pacientes viviam, na média, dois anos após o diagnóstico. Era doença vista como fatalidade. Nada a fazer. Augusto Odone, numa publicação de 2011, escreveu: “nos disseram que deveríamos voltar para casa e ver Lorenzo morrer”. “Não podíamos fazer isso e não o fizemos. ” Tiveram que enfrentar o establishment médico, pesquisadores, cientistas, a indústria farmacêutica e até os outros pais, como eles, de filhos com a mesma doença.

Como resultado da sua busca e da sua luta, Lorenzo morreu vinte e dois anos depois da data prevista pelos médicos. Morreu de pneumonia porque aspirou comida. Chegou a recuperar algumas funções e, possivelmente, deixou de perder várias outras.

A luta dos Odone beneficiou muitas crianças, além de Lorenzo.Segundo uns, o seu tratamento já beneficiou muitos dos afetados, parando ou reduzindo a velocidade da expansão da doença. Não é uma opinião unânime. Mais importante, chamaram a atenção para o sofrimento desproporcional dos afetados pela doença (pacientes, famílias e amigos) e abriram um caminho para pesquisar melhor a doença. Se chegarmos à cura, os Odone serão parte da sua história e da sua cadeia causal que é impossível reconstruir. Odone pai escreveu livro e a estória virou filme, Lorenzo’s Oil.

Não obstante, há males que afligem crianças, também de maneira destrutiva, que não são de origem genética e que afligem centenas de milhões de crianças no planeta. Talvez bilhões. São produtos da desigualdade. As deficiências, muito mais numerosas, ainda que muito menos graves, resultam de anomalias sociais, muitas das profundas diferenças entre as classes sociais. A desigualdade, que insistimos em ver com os olhos da miopia teórica, vai muito além das desigualdades de renda. Chega a afetar as relações entre pais e filhos.

Uma pesquisa feita em Stanford por Anne Fernald, publicada recentemente, mostra que a distância educacional e cognitiva entre as classes afeta até as crianças pequenas. Aos dois anos, as crianças pobres já enfrentavam seis meses de atraso verbal. Na média, dos 18 aos 24 meses as crianças de status socioeconômico mais alto acrescentavam 260 palavras novas ao seu vocabulário. As mais pobres acrescentavam trinta por cento menos. Infelizmente, essas diferenças baseadas, em última análise, na desigualdade social (leia-se social no sentido mais amplo), tendem a crescer durante o tempo e produzem choques com as instituições que as esperam. O que espera a maioria das crianças pobres? Menor assiduidade, desde cedo e até o fim da educação formal, assim como notas mais baixas, taxa mais alta de reprovação, maior deserção escolar, mais conflitos dentro das escolas, mais suspensões e expulsões da escola, sexo cedo demais, gravidez e maternidade mais precoces e sem parceiros comprometidos, mais delinquência e muito mais. Na média, desde cedo, crianças provenientes de classes diferentes são colocadas nos trilhos invisíveis da vida, que levam a destinos diferentes, cada vez mais desiguais.

As desigualdades sociais não são só de classe, mas, dentro delas, há profundas diferenças entre as famílias, particularmente entre pais e entre mães.

As desigualdades de oportunidades entre as crianças são um destino inexorável? Fatalidades das que não podemos escapar?

Felizmente, não. São probabilidades inexoráveis, mas probabilidade não é certeza.

É possível escapar deste destino – nas duas direções: para fugir do destino pior e para cair do destino melhor. A própria Fernald afirma: "It's clear that SES is not destiny". Classe não é destino.

E há boas novas: a despeito de desvantagens econômicas, pais e mães que dão atenção aos filhos e filhas, conversam com eles, estimulam sua curiosidade, se possível acompanham suas leituras, acompanham seu desempenho na escola e na vida, os acariciam, lhes dão tempo de qualidade, são trabalhadores que rejeitam os trilhos que a origem socioeconômica quer impor aos seus filhos e construíram um novo caminho para ele, dormente atrás de dormente, trilho depois de trilho.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

Há uma imensa bibliografia, baseada em pesquisas empíricas, realizadas em vários países, que mostram a desigualdade cognitiva derivada das desigualdades econômicas e sociais, assim como o efeito restaurador do amor de pais e mães.

O livro de Odone:

Augusto Odone. L'olio di Lorenzo. Una storia d'amore. Mondadori, 2011. ISBN 8804611081.

Uma visão negativa sobre a possibilidade de benefícios permanentes se encontra em Patrick Aubourg, Catherine Adamsbaum, Marie-Claude Lavallard-Rousseau, Francis Rocchiccioli, Nathalie Cartier, Isabelle Jambaque, Christine Jakobezak, Anne Lemaitre, Francois Boureau, Claude Wolf, e Pierre-Francois Bougneres

A Two-Year Trial of Oleic and Erucic Acids (“Lorenzo's Oil”) as Treatment for Adrenomyeloneuropathy. N Engl J Med 1993; 329:745-752September 9, 1993DOI: 10.1056/NEJM199309093291101

Uma revisão mais recente mostra um crescimento do conhecimento sobre essa doença. Na minha opinião, e é uma opinião como a de qualquer um, a divulgação do caso de Lorenzo ajudou a expandir esse conhecimento sobre uma doença rara que quase não se pesquisava:

Brain Pathol. 2010 Jul; 20(4): 845–856.

doi: 10.1111/j.1750-3639.2010.00393.x

Há um TED de Anne Fernald que proporciona informações sobre a importância de conversar com os filhos. Está em inglês.




Why talking to little kids matters | Anne Fernald | TEDxMonterey
This talk was given at a local TEDx event, produced independently of the TED Conferences. For babies, good conversation is nourishment for the brain. Dr.…
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