domingo, 27 de novembro de 2016

Pais obesos, filhas obesas e filhos obesos

A obesidade dos filhos revela a complexidade das relações entre o pai e a mãe, entre os dois e os filhos[1], além das características de cada um deles.

Comecemos com o impacto de um fenômeno preocupante: a ausência do pai no lar. Em 1999, Strauss e Knight demonstraram que havia mais crianças obesas em lares sem o pai do que em lares com o pai.[i]

Isso significa que a presença paterna praticamente assegura a não obesidade dos filhos?

De maneira alguma. Depende de muitos fatores, inclusive da obesidade do próprio pai. “A obesidade paterna aumenta em quatro vezes a obesidade de filhos e filhas aos 18 anos”![ii] A pesquisa foi feita há mais de quinze anos na Austrália por Burke, Beilin e Dunbar, mas ainda não é parte do conhecimento de ampla parte da população.[iii]

Claro, a pergunta seguinte é como se transmite essa tendência à obesidade? Essa pesquisa australiana usa um indicador mais sofisticado de obesidade, o BMI (Body Mass Index) para investigar essa relação. Num comportamento comum a pesquisas com modelos multicausais, controlaram variáveis associadas com a obesidade: o consumo de álcool, o fumo, a atividade física, a forma física e a educação do pai. Controlando todos esses fatores, a obesidade paterna continua influenciando a obesidade dos filhos.

Surpreendentemente, a obesidade paterna se associa mais intimamente com a obesidade das filhas do que a obesidade materna!

Afinal, qual a variável que prevê melhor a obesidade dos filhos? A percentagem de gordura no corpo do pai, segundo Figueroa-Colon, Arani, Goran, e Weinsier demonstraram em 2000.[iv] O crescimento do BMI paterno é acompanhado pelo crescimento do BMI das filhas, segundo Davison e Birch.[v]

Essa transmissão começa cedo. Pais ativos, inclusive os que se exercitam regulamente, influenciam a saúde dos filhos e filhas desde pequenos. Bebês ativos tinham pais ativos e com menos gordura no corpo.[vi] É uma associação encontrada por outros pesquisadores em outros lugares. Na Finlândia, uma equipe dedicada à pesquisa sobre infância e sobre obesidade,[2] confirmou essa associação comparando crianças obesas com um grupo controle. [vii]

A associação entre ausência paterna e obesidade não é isolada: ela é parte de uma síndrome muito maior de problemas físicos e mentais.[viii]

 


[1] Com frequência, quando usado no plural, “filhos” inclui os dois sexos. Uso porque simplifica a escrita.

[2] Fogelholm é o autor de 149 artigos listados na PubMed na data em que escrevo.


[i] Strauss, R. S., & Knight, J. (1999). Influence of the home environment on the development of obesity in children. Pediatrics, 103 (6),

[ii] Sarah Allen e Kerry Daly, The Effects of Father Involvement: An Updated Research: Summary of the Evidence, Maio de 2007. Os autores são pesquisadores da University of Guelph.

[iii] Burke, V., Beilin, L. J., e Dunbar, D. (2001). Family lifestyle and parental body mass index as predictors of body mass index in Australian children: A longitudinal study. Journal of Obesity, 25 (2), 147-157.

[iv] Figueroa-Colon, R. Arani, R.B, Goran, M. I., & Weinsier, R. L. (2000). Paternal body fat is a longitudinal predictor of changes in body fat in premenarcheal girls. American Journal of Clinical Nutrition, 71 (3), 829-834. A amostra, contudo, é pequena.

[v] Davison, K. K., & Birch, L. L. (2001). Child and parent characteristics as predictors of change in girls’ body mass index. International Journal of Obesity, 25 (12), 1834 – 1842.

[vi] Finn, K., Johannsen, N., & Specker, B. (2002). Factors associated with physical activity in preschool children. The Journal of Pediatrics, 140, 81-85.

[vii] Fogelholm, M., Nuutinen, O., Pasanen, M. Myohanen, E., & Saatela, T. (1999). Parent-child relationship of physical activity patterns and obesity. International Journal of Obesity, 23 (12), 1262 – 1268.

[viii] Horn, W. F., & Sylvester, T. (2002). Father Facts (4th ed.). National Fatherhood Initiative. [On-line]. Available: http://www.fatherhood.org/fatherfacts.htm

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